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quarta-feira, 3 de julho de 2013

Eu vou te contar...






Eu vou te contar que você não me conhece,
E eu tenho que gritar isso porque você está surdo 
e não
Me ouve.
A sedução me escraviza a você
Ao fim de tudo você permanece comigo 
mas preso ao que
Eu criei
E não a mim.

E quanto mais falo sobre a verdade inteira um abismo
Maior nos separa.
Você não tem um nome, eu tenho.
Você é um rosto na multidão 
e eu sou o centro das atenções.

Mas a mentira da aparência do que eu sou,
E a mentira da aparencia do que você é.
Porque eu,
Eu não sou o meu nome,
E você não é ninguém.

O jogo perigoso que eu pratico aqui,
Ele busca chegar ao limite possível de aproximação,
Através da aceitação da distância 
e do reconhecimento dela.

Entre eu e você existe
A noticia que nos separa
Eu quero que você me veja nu
Eu me dispo da noticia
E a minha nudez parada
Te denuncia e te espelha
Eu me delato
Tu me relatas
Eu nos acuso e confesso por nós
Assim me livro das palavras
Com as quais
Você me veste!

Texto e musica do cd Pássaro da Manhã de 1977
Poema de Fauzi Arap Com Fundo Musical Jogo de Damas 
recitado por Maria Bethânia

quarta-feira, 2 de maio de 2012

grito de alerta; o momento em que o copo está cheio


Vê se entende:






Primeiro você me azucrina, 
me entorta a cabeça
Me bota na boca 
um gosto amargo de fel
Depois vem chorando desculpas, 
assim meio pedindo
Querendo ganhar um bocado de mel

Não vê que então eu me rasgo
Engasgo, engulo, reflito, 
estendo a mão
E assim nossa vida é um rio secando
As pedras cortando, 
e eu vou perguntando: 
até quando?

São tantas coisinhas miúdas, 
roendo, comendo
Amassando aos poucos com o nosso ideal
São frases perdidas 
num mundo de gritos e gestos
Num jogo de culpa 
que faz tanto mal

Não quero a razão 
pois eu sei 
O quanto estou errada, 
o quanto já fiz destruir
Só sinto no ar 
o momento em que o copo está cheio
E que já não dá mais pra engolir

Veja bem, 
nosso caso é uma porta entreaberta
Eu busquei a palavra mais certa
Vê se entende o meu grito de alerta
Veja bem, 
é o amor agitando meu coração
Há um lado carente dizendo que sim
E essa vida da gente gritando que não


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

OdoYá









(((_Dois de Fevereiro_)))

Composição: Dorival Caymmi
Cantada por Maria Bethânia

Dia dois de fevereiro
Dia de festa no mar
Eu quero ser o primeiro
Pra salvar Yemanjá

Eu mandei um bilhete pra ela
Pedindo para ela me ajudar
Ela então me respondeu
Que eu tivesse paciência de esperar
O presente que eu mandei pra ela
De cravos e rosas vingou

Chegou, chegou, chegou
Afinal que o dia dela chegou... 



Na madrugada, mães e filhas-de-santo, além de devotos e curiosos, vão às praias, entoam cânticos e executam danças rituais. As oferendas são depositadas na praia ou colocadas em barcos ou jangadas para, em procissão, serem entregues à deusa no alto-mar.


Assim, dois de fevereiro é - oficiosamente - feriado na Bahia. É considerada a mais importante das festas dedicadas a Yemanjá;

No Brasil Yemanjá é orixá do mar e considerada mãe de todos os orixás de origem iorubá (os de origem daomeana - Omolu, Oxumaré e às vezes Exu - são tidos como filhos de Nanã). 



No sincretismo religioso brasileiro, é invocada no catolicismo como Nossa Senhora do Rosário, Nossa Senhora da Conceição, das Candeias, do Carmo, da Piedade;

Quem vive do mar ou depende de amores é devoto de Iemanjá, protetora dos navegantes e dona das uniões ou dos casamentos. As oferendas mais comuns a Iemanjá são pentes, sabonetes, perfumes, espelhos, laços de fita, pó-de-arroz, flores; enfim, adornos para satisfazer-lhe a vaidade e condizentes com sua fama de mulher fatal, de encantos irresistíveis. Recebe também alimentos rituais e às vezes até animais vivos. Como todas as deusas primitivas, Iemanjá é ciumenta, vingativa e cruel. Protege, defende, mas também castiga e mata. Às vezes, apaixona-se e tem amantes que leva para o fundo do mar.


Odoyá minha mãe, ODOYÁ!






Senhora das nuvens de chumbo
Senhora do mundo dentro de mim
Rainha dos raios, rainha dos raios
Rainha dos raios, tempo bom, tempo ruim
Senhora das chuvas de junho 
Senhora de tudo dentro de mim 
Rainha dos raios, rainha dos raios
Rainha dos raios, tempo bom, tempo ruim 
Eu sou o céu para as tuas tempestades
Um céu partido ao meio no meio da tarde 
Eu sou um céu para as tuas tempestades 
Deusa pagã dos relâmpagos
Das chuvas de todo ano 
Dentro de mim, dentro de mim 

(Maria Bethânia)









quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

antes de mergulhar...









Dance, dance, cante, cante 

Muito alto, sem medo de tudo 
De nada, sem medo de errar...

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quinta-feira, 24 de novembro de 2011

[cultura] apenas música


"O que seria de mim sem a fé em Antônio?"






Em uma das apresentações do show/DVD "Brasileirinho" a interpretação do poema "O Poeta Come Amendoim" ficou a cargo de Renata Sorrah, que sempre na sequência é encabeçada por Bethânia com a música "Santo Antônio". No DVD, a interpretação do poema fica a cargo, da não menos talentosa Denise Stoklos. Mas isso tudo não é pra fazer qualquer pessoa gostar de nenhuma das figuras, estou apenas dividindo uma boa música recheada de cultura, sem a mínima pretensão de ser pop, hit ou comercial. É para aproveitar a parte sensorial da coisa...



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segunda-feira, 4 de julho de 2011

Desassossego





Depois de me obrigar a sair do sedentarismo e ir praticar o meu esporte, tive algumas boas surpresas. Afinal, os dias tem sido razoavelmente calmos de um lado, mas em outros momentos bastante desgastante e essa oscilação acaba nos deixando a um passo de uma síncope. E nessa montanha-russa de emoções acabei me vendo bastante estressado nos últimos dias por isso tenho tentado relaxar quando posso, buscando inovar pra sair da mesmice.
Aí, nessa toada, eu ganhei alguns minutos na minha vida. Cumpri o cronograma dominical familiar, fiz a minha parte da amigo, mas quando cheguei em casa não me dei folga, e antes do desânimo me agarrar, coloquei o tênis novamente, peguei o ipod e fui correr. Num ritmo um pouco mais lento que o habitual e, talvez por isso tenha aproveitado mais visualmente a paisagem. Vi mais crianças, mais pessoas e parece que a natureza colaborou com o momento.
Depois de uma longa volta eu sentei na beira da água, estiquei as pernas e fiquei olhando fixamente a ponta do tênis. E pra ver como aquela história de que o universo conspira a nosso favor, neste exato momento o ipod no aleatório, achou por bem colocar Maria Bethânia pra cantar Gita e na seqüência declamando o poema Desassossego de Fernando Pessoa que tinha tudo a ver com o contexto, porque enquanto os pássaros brancos tomavam a totalidade da árvore no centro da represa, o alaranjado do céu ia dando lugar pro fúcsia do anoitecer. E preciso confessar que foi um fenômeno único, preciso repetir mais vezes, preciso me permitir mais vezes. E ainda, ao longe, a fonte da represa nova já estava ligada, era uma contemplação de sensações. Era eu, simplesmente me permitindo aproveitar as coisas simples da vida.





"Lembro-me de quando era criança e via, 
como hoje não posso ver, a manhã a raiar sobre a cidade.
 Ela não raiava para mim
mas para a vida
porque então eu, (não sendo consciente)
eu era a vida.
E via a manhã e tinha alegria
Hoje vejo a manhã, tenho alegria
e fico triste.
Eu vejo como via,
mas por trás dos olhos, vejo-me vendo.
E só com isso, se obscurece o sol,
o verde das árvores é velho,
e as flores murcham antes de aparecidas."


[do Livro Desassossego - Fernando Pessoa]





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segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

senhora das tempestades



  
Senhora das tempestades e dos mistérios originais

quando tu chegas, a terra treme do lado esquerdo
trazes a assombração, as conjunções fatais
e as vozes negras da noite


Senhora do meu espanto e do meu medo
Senhora das marés vivas e das praias batidas pelo vento
Senhora do vento norte com teu manto de sal e espuma
há uma lua do avesso quando chegas
há um poema escrito em página nenhuma
quando caminhas sobre as águas Senhora dos sete mares.


Conjugação de fogo e luz e no entanto eclipse
trazes a linha magnética da minha vida Senhora da minha morte
quando tu chegas começa a música Senhora dos cabelos de alga
onde se escondem as divindades


Trazes o mar, a chuva, as procelas
Batem as sílabas da noite, batem os sons,
os signos, os sinais
e és tu a voz que dita.


Trazes a festa e a despedida Senhora dos instantes
com tua rosa-dos-ventos e teu cruzeiro do sul

Senhora dos navegantes com teu astrolábio e tua errância

Tudo em ti é partida
Tudo em ti é distância
Tudo em ti é retorno


Senhora do vento com teu cavalo cor de acaso
teu chicote, tua ternura sobre a tristeza e a agonia
galopas no meu sangue com teu cateter chamado Pégaso


Senhora dos teoremas e dos relâmpagos marinhos
Senhora das tempestades e dos líquidos caminhos.
quando tu chegas dançam as divindades


E tudo é uma alquimia
Tudo em ti é milagre Senhora da energia.






           Poema Senhora das Tempestades - Manuel Alegre